Por Que a Dominância do Dólar Não Deve Acabar da Noite para o Dia

O dólar é uma das moedas mais fortes do mundo e a principal quando se trata de transações internacionais realizadas dentro do sistema Swift. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2024, a moeda americana correspondia a 58% das reservas globais dos bancos centrais, uma queda frente aos 70% do início do século.

Historicamente, as relações comerciais entre países sempre buscaram uma forma em que os pagamentos usassem uma medida de valor que tivesse utilidade para todos os envolvidos. No século XIX, por exemplo, a libra esterlina tornou-se a moeda usada no comércio global, já que a economia inglesa era uma grande potência. A adoção de uma divisa padrão de determinado país tende a fortalecer sua economia e aumentar a sua influência. Isso, claro, não agrada a algumas nações.

Esse é o caso do dólar. Vez ou outra, países se posicionam a favor da desdolarização da economia — inclusive o Brasil, como aconteceu na cúpula do Brics, (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã) – realizada no Rio de Janeiro, em julho.

Na ocasião, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Brasil, e Vladimir Putin, da Rússia, defenderam negociações entre países membros do grupo com moedas locais. O assunto gerou descontentamento em Washington, com o presidente americano, Donald Trump, ameaçando tarifar os membros do grupo e países que eventualmente fechassem negócios com membros do bloco. Alguns especialistas, inclusive, acreditam que isso iniciou o desgaste entre Brasil e EUA, que levou à taxação de 50% sobre as importações brasileiras.

Mas, afinal, o quão possível é tirar o dólar do seu protagonismo?

A importância da moeda americana
O dólar começou a ser utilizado universalmente a partir de 1944, quando foi assinado o acordo de Bretton Woods, durante a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas. O evento sacramentou a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), que passaram a regular as taxas de câmbio, usando a divisa americana como base e a equiparando ao ouro.

A professora e economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carla Beni, explica que parte do processo para que a moeda americana tenha sido escolhida como divisa global foi influenciado pelo fato de que os Estados Unidos foram o país que mais contribuiu financeiramente na criação dos novos órgãos. “Houve todo um arranjo internacional que forçou a utilização do dólar como reserva internacional”, explica.

Essas instituições não apenas estabeleceram as diretrizes do comércio global, como também passaram a fiscalizá-lo e a fornecer empréstimos aos países devastados pela Segunda Guerra Mundial — que se encaminhava para o fim em setembro do ano seguinte. Desde então, a moeda americana é usada em negociações entre países.

Segundo o professor e economista da FGV Mauro Rochlin, o dólar é usado em cerca de 70% das transações econômicas internacionais. Além disso, dados cambiais do FMI mostram que ele corresponde a 60% das reservas cambiais do mundo.

Luis G. Ferreira, CIO e vice-CEO da EFG Asset Management, considera que a força da divisa não está apenas na confiança que os agentes têm na economia dos Estados Unidos, mas também “na profundidade, liquidez e previsibilidade dos mercados financeiros americanos, no papel do sistema jurídico do país e na enorme rede global construída em torno do dólar”.

Desdolarizar?
Segundo o professor de ciências econômicas da Universidade Mackenzie, Maurício Takahashi, “desdolarizar significa reduzir a dependência do dólar americano em transações comerciais, financeiras e reservas de valor, dentro de uma determinada economia”. De acordo com Ferreira, é possível fazer isso de três formas:

Usar moeda local em acordos bilaterais;
Desenvolver sistemas alternativos de pagamento;
Diversificar as reservas do banco central.
O processo, no entanto, é complexo. De acordo com Rochlin, a economia dos Estados Unidos representa 25% da mundial. “É de longe a de maior peso e ainda tem uma grande relevância no comércio internacional. É muito difícil imaginar uma outra moeda capaz de substituir o dólar”, explica.

Para Ferreira, “a substituição de uma moeda dominante exige mais do que vontade política: é necessário um novo emissor que ofereça estabilidade macroeconômica, segurança jurídica, infraestrutura financeira comparável e, acima de tudo, confiança dos agentes privados”. Ele ressalta que o processo depende de grandes transformações estruturais, as quais estão longe de acontecer.

O tamanho do desafio pode ser ilustrado pela criação do euro, em 1999. A União Europeia (UE) o definiu como sua moeda não só para promover maior integração econômica entre seus membros, mas também para rivalizar com o dólar. Hoje, o euro é a segunda divisa mais usada no mundo, mas representa apenas 20% das reservas mundiais.

Segundo Takahashi, o processo de desdolarização exigiria “coordenação global e estabilidade política entre as grandes economias, além de uma rede financeira robusta para suportá-la”, algo que ele aponta como pouco provável.

Os defensores da desdolarização
Dentro do Brics, a Rússia é uma das principais defensoras do enfraquecimento do dólar no comércio internacional, apesar de Índia e China também serem favoráveis. Desde o início da Guerra na Ucrânia, a economia russa vem sofrendo com diversas sanções comerciais, com o país sendo destituído do Swift e impedido de acessar sua reserva de US$ 630 bilhões (R$ 3,4 trilhões).

O evento também deixou alguns países temerosos quanto às consequências de centralizar suas reservas no dólar. Apesar da pauta ter sido apresentada por Lula e Putin, o próprio Brics e o governo brasileiro tratam o assunto com bastante cautela. Autoridades do Brasil também apresentam resistência. De acordo com o CIO da EFG, o grupo ainda tem outros desafios, já que a maioria de seus membros têm controles de capital, volatilidade cambial e desafios institucionais, o que reduz sua atratividade externamente.

“Do ponto de vista técnico, o Brics quer reduzir a vulnerabilidade de seus membros ao controle do dólar sobre o sistema financeiro global”, explica o professor do Mackenzie. Para Beni, a tendência é que isso seja uma possibilidade, especialmente pelo avanço da tokenização e do blockchain. “No entanto, existem diversas dificuldades, já que há também questões políticas”, pondera.

“Há um esforço generalizado – não só do Brics – em diversificar esse montante, embora isso não signifique que essas nações deixarão de usar a moeda americana”, aponta Matheus Spiess, economista da Empiricus.

Ele explica que essa diversificação deve incluir moedas fortes, como o euro, a libra esterlina, o franco suíço e o yen japonês, além de metais preciosos, a exemplo do ouro, que vem sendo cada vez mais atrativo. “Diferentemente do que aconteceu com a libra esterlina, o dólar não possui um substituto evidente, embora existam alternativas, elas não são tão robustas quanto a divisa americana”, explica Spiess.

Ainda nesse universo, chama a atenção o avanço do yuan, moeda chinesa. Segundo dados do FMI, os pagamentos em yuan saltaram de zero em 2014 para 20% em 2021. De acordo com Beni, a China usa sua divisa em negociações com ao menos 125 países.

O Brasil conseguiria?
A economista da FGV aponta que um país, sozinho, não consegue se desdolarizar, já que muitos de seus parceiros comerciais negociam apenas em dólar. Por outro lado, ela destaca que o Brasil vem se movimentando para diversificar sua reserva internacional. Um exemplo disso é que 5% dela é em yuan, embora grande parte ainda seja em dólar, com US$ 350 bilhões (R$ 1,9 trilhão) no Banco Central (BC).

Rochlin acredita que esse processo seria basicamente impossível. “Todas as transações econômicas internacionais do Brasil são em dólar, inclusive seus principais parceiros – com exceção da China”, afirma. Ele explica que a desdolarização poderia acontecer dentro de “muitas décadas, no mínimo”. “Ainda que a China seja o país com quem mais comercializamos, o próprio comércio internacional dela é dominado pelo dólar e isso exemplifica o tamanho da dificuldade que é essa mudança”, aponta.

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