A Nestlé anunciou nesta quinta-feira (19) que planeja enxugar seu extenso portfólio em quatro divisões e vender seus negócios remanescentes de sorvetes para tentar se recuperar das dificuldades financeiras enfrentadas pela companhia.
Ao divulgar os resultados anuais, o CEO da empresa, Philipp Navratil, afirmou que a Nestlé se concentrará em seus negócios de café, alimentos, nutrição e produtos para animais de estimação, e está em "negociações avançadas" para vender o restante de seus ativos de sorvetes para a Froneri, com quem já tem parceira de joint venture.
"Estamos focando nosso portfólio em quatro negócios, liderados por nossas marcas mais fortes, com recursos priorizados e uma organização simplificada", declarou Navratil. Anteriormente, o Financial Times já havia divulgado que Navratil planejava reorganizar a empresa em torno de quatro negócios.
As marcas de sorvete da Nestlé são LaFrutta (linha de picolés e sorvetes de frutas), Mega (linha de picolés de creme), Especialidades (sorvete de pote napolitano com Lollo, Galak e Sensação), versões especiais de Prestígio, Galak e Crocante, além da linha tradicional de sorvetes de pote de diversos sabores.
Os planos da Nestlé surgem em um momento em que ela e outros grupos de consumo, incluindo Unilever e Reckitt, têm sido pressionados nos últimos anos a impulsionar o crescimento vendendo marcas e categorias de crescimento mais lento.
Desde sua nomeação, Navratil anunciou o corte de 16 mil empregos nos próximos 18 meses. Além da planejada saída do segmento de sorvetes, ele deu continuidade aos planos de seu antecessor de deixar o negócio de água e suas marcas convencionais de vitaminas e suplementos.
A Nestlé já vendeu a maior parte de seus negócios de sorvetes para a Froneri, que foi criada em 2016 como uma joint venture com a firma de private equity PAI Partners. Os negócios que ainda não foram vendidos estão no Canadá, Chile, Peru, China, Malásia e Tailândia.
Em seus resultados anuais, a companhia reportou um crescimento orgânico de vendas melhor do que o esperado, de 3,5%, para 89,5 bilhões de francos suíços (R$ 604,73 bilhões). O lucro operacional caiu 8,4%, para 14,4 bilhões de francos suíços (R$ 97,3 bilhões), impulsionado pela inflação nos custos de insumos, aumento nos gastos com marketing e o impacto das tarifas.
A empresa disse na quinta-feira que já alcançou 20% dos 3 bilhões de francos suíços (R$ 20,27 bilhões) em economia de custos previstos até o final de 2027. Navratil disse que essa proporção está acima do previsto.
A Nestlé estimou que terá um impacto de 75 milhões de francos suíços (R$ 506,76 milhões) com a diminuição de vendas devido ao recall de fórmula infantil, e mais 110 milhões de francos suíços (R$ 743,25 milhões) com a perda no estoque.
O recall foi provocado pela presença potencial da toxina cereulida, que pode causar sintomas como vômito persistente, diarreia ou letargia, que é a sonolência excessiva, lentidão de movimentos e raciocínio, e incapacidade de reagir e expressar emoções.
A Nestlé realizou o recall em cerca de 60 países, incluindo o Brasil, e outras empresas como Danone e Lactalis também anunciaram recall devido ao mesmo problema. O governo francês divulgou que três crianças morreram após consumirem o produto.
Folha Mercado
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Navratil também disse que a empresa espera um crescimento orgânico entre 3% e 4% em 2026. Analistas alertaram que investidores ansiosos por ver mudanças mais radicais no portfólio da Nestlé podem ficar decepcionados com as mudanças planejadas.
"Esperaríamos uma reação positiva hoje, mas nos preocupa que qualquer continuidade possa ser limitada, a menos que ações de portfólio mais tangíveis sejam mencionadas nas próximas apresentações da empresa", afirmou Cedric Besnard, analista do Citi.
O analista da Jefferies, David Hayes, disse que os planos de portfólio "mudaram pouco" e são "pouco dramáticos por enquanto".
As ações subiram mais de 3% nas negociações da manhã em Zurique.
