A inteligência artificial já começou a mexer no mercado de trabalho. As vagas de entrada estão diminuindo, tarefas operacionais passaram para as máquinas e empresas cobram de profissionais recém-formados competências que antes pertenciam aos mais experientes. O problema é que muita gente ainda trata essa mudança como uma ameaça distante.
Dados do Fórum Econômico Mundial indicam que 22% dos empregos serão afetados até 2030. A projeção aponta o desaparecimento de 92 milhões de postos, mas também a criação de 170 milhões de novas funções. O saldo pode ser positivo, mas não necessariamente para as mesmas pessoas.
Para Marcus Vinicius Andrade, diretor e fundador da Faculdade de Administração de Empresas do ICTQ, a discussão não deve ser reduzida à pergunta sobre quais profissões vão desaparecer.
“A inteligência artificial não vai simplesmente eliminar o trabalho. Ela vai mudar quem consegue entrar, crescer e permanecer no mercado. Quem souber usar a tecnologia para ampliar a própria capacidade terá espaço. Quem continuar trabalhando como se nada estivesse acontecendo ficará para trás”, afirma.
Os primeiros impactos aparecem justamente entre os jovens. Levantamento do FGV Ibre aponta que brasileiros de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas à tecnologia têm 5% menos chance de conseguir emprego e renda quase 7% menor. Outro movimento já ganhou nome: seniorização das vagas de entrada. Desde 2019, cargos iniciais que passaram a exigir liderança, criatividade e pensamento estratégico cresceram 35%, enquanto as demais oportunidades para iniciantes encolheram 10%.
Na prática, a empresa quer um profissional júnior com postura de sênior. A IA executa parte do trabalho repetitivo, mas alguém ainda precisa conferir, interpretar, decidir e responder pelos erros.
“A ferramenta pode organizar dados, produzir textos e acelerar processos. Mas não conhece a realidade da empresa, não entende sozinha o impacto de uma decisão e pode errar com muita segurança. O profissional não pode terceirizar o próprio raciocínio”, diz Marcus.
A pressão também chegou às universidades. Jovens que estão começando a carreira enxergam a IA ocupando justamente as tarefas pelas quais aprenderiam o trabalho. Ainda assim, apostar apenas no medo é um erro. Cerca de 40% das habilidades profissionais devem mudar até o fim da década, e candidatos que apresentam competências em inteligência artificial já recebem mais convites para entrevistas.
“O diploma continua importante, mas deixou de ser suficiente. O mercado procura alguém que saiba aprender, se adaptar, trabalhar com pessoas, resolver problemas e usar a tecnologia com responsabilidade. A formação precisa preparar o aluno para uma realidade que muda enquanto ele ainda está estudando”, avalia.
Marcus também alerta que a inteligência artificial pode aprofundar desigualdades. Quem tem acesso a formação e treinamento avança mais rápido. Quem não tem corre o risco de perder espaço, renda e oportunidades.
“O maior risco não é a IA ficar inteligente demais. É o profissional demorar demais para entender o que está acontecendo. A tecnologia será colega de trabalho, ferramenta e concorrente ao mesmo tempo. Adaptar-se deixou de ser um diferencial. Virou condição para continuar no jogo”, conclui.
