A partir de 2026, o varejo farmacêutico entra em um período em que erro de precificação deixa de ser ajuste de tabela e vira perda direta de caixa. A transição para o novo modelo de tributação do consumo amplia a transparência dos tributos no documento fiscal e exige que a farmácia trate imposto como variável de decisão de negócio, não como rotina burocrática.
O desenho que começa a ganhar materialidade no dia a dia das lojas combina dois elementos que, juntos, elevam o nível de complexidade: a convivência entre o sistema atual e o novo, e a adoção de uma lógica de débito e crédito, com destaque na nota fiscal para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). É nessa interseção que sistemas, cadastro, compras e financeiro passam a precisar operar em padrão de precisão.
Para a CEO do Grupo MCX, Carolina Oliveira, o risco imediato não está em “pagar mais imposto” como ideia abstrata, mas em perder o controle do mecanismo que forma preço e sustenta margem. “A transição da Reforma Tributária, especialmente a partir de 2026, representa uma mudança profunda na forma como as farmácias lidam com impostos. Não se trata apenas de novas alíquotas, mas de uma nova lógica de tributação baseada no modelo de débito e crédito, com destaque do IBS e da CBS nas notas fiscais. Na prática, as farmácias passarão a conviver com dois sistemas ao mesmo tempo, o atual e o novo, o que aumenta significativamente a complexidade operacional e os riscos de erro”, explicou ela.
O ponto central, no recorte das farmácias, é que a transição tende a revelar fragilidades que já existem, mas estavam escondidas por práticas de formação de preço pouco conectadas à carga tributária real e ao direito a crédito. “O primeiro impacto real aparece no caixa, principalmente por meio de falhas na precificação, perda de créditos e sistemas que ainda não estão preparados para as novas regras”, afirmou Carolina.
Margem e crédito entram no centro
O primeiro lugar onde a reforma aperta é a margem, porque muda o custo real de vender, categoria a categoria, canal a canal. “O que dói primeiro é a margem. A maioria das farmácias ainda forma preço sem conhecer a carga tributária real dos seus produtos. Com a reforma, isso fica insustentável. Pequenos erros de cálculo passam a gerar prejuízos relevantes”, disse.
Na leitura de Carolina, a mudança também desloca o peso da decisão de compras: o fornecedor deixa de ser avaliado apenas por preço e condição comercial e passa a ser analisado pelo efeito fiscal. “Outro ponto crítico é o crédito tributário: quem não souber comprar corretamente, observando o regime dos fornecedores e a geração de créditos de IBS e CBS, vai pagar imposto em cascata sem perceber”, afirmou.
Esse efeito de cascata invisível é particularmente sensível em operações que trabalham com mix amplo, diferentes regimes de fornecedores, condições promocionais frequentes e alto giro. Quando o crédito não é apropriado corretamente ou quando a compra é feita sem considerar o impacto do regime do fornecedor, o que parecia desconto vira custo.
Carolina ressalta que a transição amplia a exigência de padronização e qualidade do dado fiscal, com mudanças em classificação tributária e integração sistêmica. Assim, se o cadastro estiver errado, o resto do processo se desorganiza. Nesse cenário, o fiscal passa a operar como gargalo operacional, e não como área de suporte.
Carolina reforça esse risco ao apontar a distância entre a realidade da loja e o nível de preparo tecnológico de parte do setor. “Muitos sistemas de gestão ainda não estão prontos, o que transforma o fiscal em gargalo operacional e risco jurídico”, disse.
O que fazer em 2026
A CEO do Grupo MCX descreve 2026 como um ano de método e disciplina, não de improviso. “A prioridade é dominar a própria margem, entender exatamente quanto ganha por produto, por categoria e por canal. A segunda é simular o impacto do novo sistema, testando precificação com carga de IBS e CBS. A terceira é revisar fornecedores, porque a escolha deixará de ser apenas comercial e passará a ser também fiscal”, afirmou.
Há um ponto incômodo nessa lista: ela exige que a farmácia pare de administrar por sensação. Margem por categoria não resolve quando a distorção está por SKU, por canal, por política promocional e por condição de compra. O que Carolina está dizendo, sem enfeite, é que quem não tiver granularidade vai errar justamente nos itens que mais vendem.
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A quarta prioridade é financeira e precisa ser tratada como gestão de risco. “E, por fim, preparar o caixa para um período de aprendizado, ajustes e possíveis distorções até a consolidação do novo modelo em 2027”, explicou.
Na prática, isso significa montar uma rotina mínima de simulação e revisão: testar cenários de preço com IBS e CBS, identificar itens sensíveis de mix, revisar cadastros críticos, corrigir processos de compra que inviabilizam crédito e ajustar a governança entre loja, backoffice e contabilidade.
Fiscal vira pilar de gestão
Ao falar de processo interno, Carolina é direta: “A farmácia precisa revisar profundamente o cadastro de produtos, o processo de compras, a formação de preços e a integração entre o fiscal e o financeiro. O fiscal deixa de ser apenas uma área de compliance e passa a ser um pilar estratégico da gestão”.
Essa frase é a linha que separa empresas que atravessam a transição com controle das que entram em modo reativo. Não é uma defesa do “fiscal poderoso”. É uma constatação operacional: sem integração, o imposto vira erro repetido e multiplicado, e o caixa absorve.
Na sequência, ela aponta o risco competitivo de manter o imposto em segundo plano. “Quem continuar tratando imposto como algo operacional, e não como elemento de decisão de negócio, vai perder competitividade rapidamente”, dispara Carolina.
Para sustentar essa virada, o papel da contabilidade também muda. “A contabilidade deixa de ser apenas uma prestadora de obrigações acessórias e passa a ser uma parceira estratégica do empresário. Na Reforma Tributária, não basta ter uma contabilidade que apure impostos; é fundamental ter uma contabilidade que entenda de modelo de negócio, margem, precificação, crédito tributário, sistemas e planejamento”, afirmou.
A especialização não é luxo, é redução de erro. “Uma contabilidade especializada em farmácias consegue antecipar riscos, simular cenários, orientar compras, ajustar processos e proteger o caixa do empresário. Sem esse apoio técnico, a chance de erro aumenta exponencialmente”, disse ela.
Transparência na nota exige roteiro de atendimento
Além do backoffice, a reforma chega ao balcão. Com o imposto destacado no documento fiscal, a equipe de loja precisa de resposta curta e padronizada para não gerar ruído com o consumidor. “A orientação deve ser simples e padronizada. A equipe pode explicar que o imposto sempre existiu, mas agora aparece de forma mais transparente por exigência da nova legislação. O valor final do produto já inclui todos os tributos, não se trata de um custo adicional”, explicou Carolina.
O objetivo é preservar confiança. O mais importante é não gerar ruído no ponto de venda e manter a confiança do consumidor. A Reforma Tributária não vai transformar o mercado de forma imediata. Ela vai, ao longo do tempo, diferenciar empresas bem estruturadas daquelas que não dominam seus números, processos e margens.
A mensagem final é incômoda, porque desloca responsabilidade para dentro da operação. A reforma não ataca apenas o fiscal. Ela expõe a farmácia que não sabe sua margem, não simula cenários e não domina cadastro e compras. E, como Carolina sintetiza, “nesse novo cenário, a contabilidade especializada deixa de ser apenas um suporte operacional e passa a ser um dos principais pilares de sustentação, eficiência e crescimento dos negócios”.
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