A sanção da Lei nº 15.357/2026 abriu uma nova frente de concorrência no varejo brasileiro. Com a autorização para instalação de farmácias e drogarias em áreas de venda de supermercados, grandes grupos do setor alimentar começaram a se movimentar para entrar de forma mais agressiva no mercado farmacêutico.
Para administradores de empresa, a mudança vai muito além da abertura de um novo ponto de venda. Ela envolve estratégia de expansão, diversificação de receitas, aproveitamento de fluxo, integração de canais, posicionamento comercial e disputa por um consumidor que busca conveniência, preço e acesso rápido a produtos e serviços de saúde.
A entrada dos supermercados nesse mercado também muda a lógica competitiva das farmácias tradicionais. O consumidor que antes precisava se deslocar para uma drogaria poderá encontrar medicamentos e serviços farmacêuticos no mesmo local em que compra alimentos, itens de higiene, limpeza e produtos de consumo diário.
Esse movimento cria oportunidades, mas também aumenta a complexidade da gestão. Empresas que desejam atuar nesse novo formato precisarão compreender regras sanitárias, operação farmacêutica, estrutura física, contratação de profissionais habilitados, controle de estoque, rastreabilidade, atendimento, margem e experiência do cliente.
Lei permite farmácias dentro de supermercados
A Lei nº 15.357, publicada no Diário Oficial da União em 23 de março de 2026, alterou a Lei nº 5.991/1973, que regula o controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos. A nova norma permite a instalação de farmácias ou drogarias em áreas de venda de supermercados, desde que sejam cumpridas as exigências sanitárias e técnicas do setor.
A operação deve ocorrer em espaço independente dos demais setores do supermercado. A farmácia poderá ser administrada diretamente, sob a mesma identidade fiscal, ou por meio de contrato com farmácia ou drogaria licenciada e registrada nos órgãos competentes.
A legislação também estabelece exigências relacionadas a dimensionamento físico, consultórios farmacêuticos, recebimento, armazenamento, controle de temperatura, ventilação, iluminação, umidade, rastreabilidade, dispensação, assistência e cuidados farmacêuticos.
Outro ponto central é a presença obrigatória de farmacêuticos legalmente habilitados durante todo o horário de funcionamento da farmácia ou drogaria instalada no supermercado. A norma também proíbe a oferta de medicamentos em áreas abertas, bancadas, estandes ou gôndolas externas ao espaço exclusivo da farmácia.
Assaí e Cencosud já se movimentam
Grandes grupos do varejo alimentar já começaram a planejar sua entrada nesse novo mercado. O Assaí Atacadista pretende abrir 25 lojas-piloto até dezembro de 2026, com as primeiras inaugurações previstas para julho em São Paulo. O projeto, chamado “Mundo Saúde”, prevê a instalação de farmácias dentro de unidades da rede.
A estratégia aproveita ativos que os supermercados já possuem: alto fluxo de consumidores, estacionamento, área construída, climatização, capilaridade e frequência de compra. Para uma empresa de varejo, inserir uma farmácia em uma estrutura já existente pode aumentar a produtividade por metro quadrado e diluir custos fixos.
A Cencosud Brasil também prepara sua entrada nesse formato. O grupo, que já opera farmácias sob a bandeira GBarbosa em áreas externas às lojas, planeja integrar o modelo ao interior de redes como Prezunic e Giga Atacado.
A movimentação mostra que os supermercados enxergam a farmácia como extensão estratégica do negócio. Não se trata apenas de vender medicamentos, mas de aumentar recorrência, ampliar cesta de consumo, melhorar conveniência e capturar parte de um mercado tradicionalmente dominado por redes especializadas.
Abras prevê avanço ainda em 2026
Em entrevista exclusiva à EXAME, João Galassi, presidente da Associação Brasileira de Supermercados, afirmou que o setor deve começar a instalar farmácias dentro das lojas ainda em 2026. Para ele, a implementação será gradual, mas os primeiros movimentos devem ocorrer no curto prazo.
Segundo Galassi, o mercado já deve ver “inúmeras farmácias” sendo implantadas no setor de supermercados ainda neste ano. A avaliação indica que a nova lei pode acelerar projetos que já vinham sendo estudados por grupos interessados em diversificar receitas e ampliar serviços ao consumidor.
A possibilidade de pagamento no caixa do supermercado também entra na lógica de conveniência, desde que respeitadas as regras de embalagem, rastreabilidade e segregação. Em medicamentos sujeitos a controle especial, a norma exige cuidados adicionais, incluindo embalagem lacrada, inviolável e identificável.
Galassi também não descarta parcerias e aquisições. Redes que ainda não dominam a operação farmacêutica podem buscar farmácias independentes, operadores especializados ou pequenos grupos regionais para acelerar a entrada no setor e reduzir a curva de aprendizado.
Supermercados ganham nova fonte de receita
A entrada no mercado farmacêutico é uma estratégia de diversificação. Para supermercados, a farmácia pode funcionar como uma nova fonte de receita, com produtos de alta demanda, recorrência de compra e potencial de fidelização.
Medicamentos isentos de prescrição, itens de autocuidado, produtos de higiene, dermocosméticos, suplementos e correlatos podem se beneficiar do fluxo natural dos supermercados. O consumidor já está no local, já tem intenção de compra e pode incluir produtos de saúde na mesma jornada.
Do ponto de vista administrativo, esse modelo pode aumentar o ticket médio, melhorar a ocupação de área, gerar tráfego adicional e fortalecer a percepção de conveniência da loja. Ao mesmo tempo, exige controle rigoroso, porque medicamentos não seguem a mesma lógica operacional de produtos comuns.
A farmácia dentro do supermercado precisa de gestão especializada. O negócio envolve licenciamento, responsabilidade técnica, regras sanitárias, armazenamento adequado, profissionais habilitados, sistemas de controle, treinamento e integração com a operação principal da loja.
Farmácias tradicionais terão de se reposicionar
A nova concorrência pressiona as farmácias tradicionais, especialmente aquelas que ainda dependem de preço, localização e venda de produtos de maior giro. Supermercados têm escala, fluxo, poder de negociação e capacidade de integrar medicamentos à rotina de compras do consumidor.
Isso pode impactar principalmente compras ocasionais. Produtos de conveniência, medicamentos isentos de prescrição e itens de autocuidado tendem a ser disputados com mais intensidade, porque são categorias em que a decisão de compra pode ocorrer de forma rápida.
Para competir, farmácias precisarão reforçar sua proposta de valor. O caminho não pode ser apenas vender mais barato. O diferencial está na experiência, no relacionamento, nos serviços de saúde, nos consultórios farmacêuticos, no acompanhamento de pacientes e na confiança construída com a comunidade.
Para administradores, esse é um ponto decisivo: quando um novo concorrente entra com força em preço e conveniência, a resposta estratégica precisa vir pela diferenciação. A farmácia que se posiciona apenas como loja fica vulnerável. A farmácia que se posiciona como estabelecimento de saúde constrói barreiras competitivas mais difíceis de copiar.
Medicamento não pode ser tratado como produto comum
A entrada dos supermercados no setor farmacêutico também exige cuidado conceitual. Medicamento não é um produto comum. Ele envolve risco sanitário, orientação técnica, uso correto, interação medicamentosa, contraindicações, armazenamento adequado e impacto direto na saúde da população.
Isso não impede a operação em supermercados, desde que ela siga as regras sanitárias e seja conduzida em espaço próprio, com farmacêutico presente e estrutura adequada. Mas reforça que a gestão desse negócio precisa ir além da lógica de gôndola, margem e promoção.
Administradores que desejam atuar no mercado farmacêutico precisam compreender essa diferença. A gestão de uma farmácia exige visão de negócio, mas também exige respeito à regulação, à assistência farmacêutica e à segurança do paciente.
A nova lei, inclusive, reconhece essa complexidade ao exigir estrutura própria, assistência, cuidados farmacêuticos e possibilidade de consultórios. Ou seja, mesmo dentro de um supermercado, a farmácia continua sendo um serviço de saúde regulado.
Gestão especializada será cada vez mais necessária
A Lei nº 15.357/2026 inaugura uma fase de maior disputa e sofisticação no varejo farmacêutico. Supermercados entram com escala, conveniência e fluxo. Farmácias tradicionais precisarão responder com posicionamento, serviços, relacionamento e gestão mais profissionalizada.
Esse cenário exige administradores capazes de interpretar regulação, comportamento do consumidor, canais de venda, margem, operação, logística, marketing, negociação e estratégia. No mercado farmacêutico, decisões empresariais têm impacto comercial, mas também sanitário e social.
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A entrada dos supermercados no mercado farmacêutico mostra que o setor está mudando rapidamente. Para administrar empresas nesse ambiente, não basta conhecer gestão de forma genérica. É preciso entender saúde, regulação, varejo, indústria, serviços e comportamento do consumidor farmacêutico.
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